Carência em Família – A história de famílias rio-pardenses em situação de vulnerabilidade social

Vidas Secas, de Graciliano Ramos, retrata minuciosamente a miséria enraizada nas áreas mais castigadas do Sertão. Na obra, a família sertaneja – um homem, sua esposa, dois filhos e o cachorro – se vê obrigada a buscar uma perspectiva mais acessível e adequada de vida em relação àquela na qual se encontra, para se distanciar dos percalços vividos por inúmeras famílias de forma deplorável, sem acesso ao alimento, à moradia digna, frutos do descaso social e do Poder Público. Este aspecto e esta identidade mencionados acima são sinônimos para milhares de rio-pardenses.

Nem sempre há um pai presente, às vezes, são laços familiares em que a mãe é a única representante e organizadora das necessidades básicas de dentro do lar, ou uma avó, como Dona Marinalva, de 54 anos, que convive com seis netos. Dona Marinalva permitiu que sua história fosse veiculada.

Moradora do Jardim São Bento, bairro aos fundos do Vale do Redentor, Marinalva não consegue mais emprego desde 2016 devido aos problemas que possui na coluna cervical.

“A partir de 2016, eu não arrumo mais um serviço para ajudar a sustentar meus netos e minhas filhas, que ainda estão comigo e enfrentam a mesma situação de carência. Por esses três anos, recebemos e nos mantemos com cestas básicas doadas por pessoas anônimas e que vêm até nós. Caso não fosse assim, estaria passando fome”.

A casa na qual Marinalva e seus familiares residem é muito pequena, com três cômodos. Os netos dormem em colchões velhos que mais parecem panos sobre o chão. Ao lado de fora, áreas em construção, paredes erguidas, terra e poeira. Marinalva afirma que o marido realizou um empréstimo para criar mais um espaço que acomodasse os netos, mas infelizmente o dinheiro não foi o suficiente. “Se tivéssemos condições, talvez, se houvesse quem nos ajudasse com o término do cômodo.”, de uma forma triste, explica.

As crianças não reclamam das dificuldades do dia-a-dia, principalmente pelo amor à Marinalva, apesar de desejarem que a avó reforme o lugar o quanto antes.

Em um outro Bairro do Município

A aproximadamente 9 km de Marinalva, no Bairro Paula Lima, o repórter conversou com Eliana, de 34 anos, e Manoel, de 73 anos.

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Eliana é mãe de 5 filhos, duas meninas e três meninos. Tem a assistência da mãe, está em processo de divórcio e desempregada. O pai não paga pensão aos filhos. A moradia também é simples. Para se chegar até Eliana, o caminho todo é de terra, a estrada não foi asfaltada. Todos os moradores do Paula Lima, não só os dois citados, estão longe do pronto socorro ou do sistema de saúde mais próximo, e o transporte público não circula – o que dificulta a ida e vinda de pessoas, ainda quando precisam recorrer ao Poder Público.

O senhor Manoel, aposentado, chama atenção. Um homem de 73 anos, branco, duas filhas que são deficientes mentais, e sua esposa. Tanto ele quanto a esposa contam com experiência na lavoura, no trabalho no campo desde muitos jovens. Manoel diz ter passado fome e se revolta ao definir seu histórico de carência ao jornalista.

“Em casa, três pessoas da família são dependentes de remédios caros e contínuos, os quais alguns obtemos através do CAPS e que são para minhas filhas. Um ou outro indivíduo nos fornece cestas básicas. Apenas remédios, gastamos mais de 350 reais. Com aluguel, 610 reais. Tudo já é quase meu benefício de aposentadoria, de um salário mínimo”.

Estas famílias já requisitaram ou tentaram ser atendidas pela Assistência Social municipal, porém não obtiveram respostas concretas ou formais. “Procuramos! Como é impossível ficarmos nos locomovendo a todo o momento (sem transporte), então nem sempre somos atendidos”, declara Eliana.

Manoel compartilha do mesmo infortúnio. Em mãos, apresenta um requerimento redigido pela Secretaria municipal de Assistência Social de São José do Rio Pardo. O idoso solicita cestas básicas e remédios há um ano conforme registrado no documento oficial.

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“Eles não me atendem (Prefeitura) de jeito nenhum, já mostrei várias vezes este papel e já fui até eles várias vezes, implorando e de joelhos. Foi um funcionário do fórum que me orientou a ir à Prefeitura elaborar este requerimento.”, acrescentou.

Inicia-se uma jornada, porque o senhor de 73 anos, sem o que comer em um dia qualquer, percorre quilômetros para achar alguém que doe um pacote de arroz, de feijão, para sobreviver. 

O Ministério do Desenvolvimento Social estima que, em São José do Rio Pardo, 3.481 mil famílias tenham renda mensal de meio salário mínimo. Dessas, 1.881 recebem o Bolsa Família, mais de 3 mil estão cadastradas no programa e 1.416 estariam em extrema miséria sem o Bolsa Família, dados que incorporam tanto o perfil de Dona Marinalva, como o de Eliana e de Manoel.

Andréa Modolo, assistente Social do Tribunal de Justiça da Comarca da cidade, em entrevista ao Jornal Agora Rio Pardo no ano de 2018, alega a inexistência de projetos sociais e ações afirmativas para diminuir o número de famílias em situação de pobreza.

Dona Marinalva, com o Bolsa Família, recebe 120 reais, o que, segundo ela, é o necessário só para comprar o gás. Já Eliana está sem receber por causa de uma questão de endereço de onde mora, valor que possibilitava o pagamento de uma conta de energia. “Vira e mexe o pagamento da força está atrasado, e a CPFL corta.”, menciona.

A residência de Dona Marinalva e de Eliana têm certas similaridades. Os telhados das casas de Marinalva e Eliana não são forrados, quando chove muito forte, a água escorre pelas paredes e inunda o chão cimentado.

“À noite, quando chove forte, é uma luta. Já pus um plástico sobre o teto para que a água não desça, porém é questão de horas para que o plástico não aguente e a água escorra. Não é comigo, sinto pelos meus netos.”, ressalta Marinalva.

Dona Alíria, mãe de Eliana, chora ao pensar que a filha e os netos estão neste estado. Quer que a filha saía desta condição o mais rápido possível. “Não aguento mais. Não queria que fosse assim. Ora é a água, é a força, é o alimento! Não queria que ela vivesse desta forma”.

Alíria, de 56 anos, exerce sua profissão de fé e acredita que um futuro melhor deva surgir em breve para a filha e outras famílias carentes esquecidas pelo Governo, pelas organizações sociais, pelo Brasil, e que só servem de estatísticas para fins políticos.

Eu sou seu Jornalista de sempre, Gabriel Fécchio!

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4 comentários sobre “Carência em Família – A história de famílias rio-pardenses em situação de vulnerabilidade social

  1. ricardo

    Infelizmente é uma vergonha ver tanta miséria numa cidade cheia de fartura, enquanto não acabar com esse grupo fechado de São José do Rio Pardo nós iremos ficar nesta situação por muito tempo. Eu com alguns amigos criamos uma Associação em 2009 ABAME (Associação Brasileira de Artes Marciais e Esportes),, está Associação foi criada no intuito de divulgar nossos Atletas de S.J do Rio Pardo pois pra quem não sabe temos Atletas excelentes em várias modalidades,,, e com isto promovendo um trabalho social, na inclusão social, na evasão das crianças em escolas, evitando o crescimento com drogas e criminalidade na cidade, ajudando as famílias na educação das crianças, unindo os pais e filhos, cestas básicas etc.,, Já tivemos um trabalho que chegou a 200 crianças, más um projeto Social gera custo e sem a ajuda da Prefeitura, Vereadores, das Empresas,,chegou um tempo que não conseguimos e tivemos que parar, ano passado recomeçamos novamente sem ajuda más desta vez iremos vencer,, Enfim quero chegar ao ponto em que,, temos o mesmo projeto em São Paulo e Guarulhos e funciona pois temos ajuda das empresas e de alguns amigos,,, as Familias que estão envolvidas nos projetos estão cada dia melhor, Saúde, Financeiramente pois através do projeto conseguimos encaminhar as pessoas nas empresas, os pais longe de bebidas e drogas as crianças no esporte e na escola. tudo através do Esporte e ação social. (ACORDA RIO PARDO VAMOS DEIXAR O ORGULHO DE LADO E SE CONSCIENTIZAR COM NOSSO PRÓXIMO).

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  2. Jose Pascoal Tiburcio

    isso precisa chegar até os vereadores da cidade,para tomarem uma providencia não só para essas duas familias como para outras na mesma situação

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